Os 5 erros mais comuns em contratos e como evitar

De acordo com a advogada Laurem Juliê Liria Fernandes Ferreira Alves diz que, pequenos erros em contratos podem provocar grandes problemas jurídicos e financeiros.

Diz ainda que contratos mal feitos podem arruinar a relação entre as partes e podem afetar diretamente a credibilidade do advogado que é responsável pelo serviço.

Segundo Laurem os 5 erros mais constantes em contratos e que se deve eliminá-los com um olhar estratégico e técnico.

1. Uso de Cláusulas Genéricas

O Problema:

Para a estudiosa Laurem, contratos que utilizam modelos genéricos frequentemente não analisam as particularidades de cada caso, deixando brechas jurídicas que podem ser investigadas e discutidas.

Afirma Laurem, um exemplo clássico é a cláusula penal, que, quando genérica e sem revisão, pode:

  • estabelecer uma penalidade que, ao ser empregada, não cobre o prejuízo real causado à parte afetada, não possibilitando um reembolso complementar.

Ser considerada como abuso, caso estabeleça valores desproporcionais ou pena com excesso.

Como Evitar:

Análise detalhada do caso:

  • Avaliar o local de atividades, o instrumento do contrato e o histórico dos elementos envolvidos.
  • Identificar os riscos específicos e as obrigações cuja violação pode gerar maior impacto.

Personalize a cláusula penal:

  • Estabelecer penas com proporções ao tipo de descumprir ao tal. Exemplificando por exemplo, uma multa específica para atrasos e outra para violações mais profundas.
  • Verifique a probabilidade de indenização complementar, caso os prejuízos transpassem o valor da pena fixa.

Revisão Jurídica:

  • Revisar a cláusula oportunamente para certificar que esteja ordenada às alterações legislativas e às necessidades do negócio.
  • Utilizar procedimentos alternativos, como seguros, para acrescentar a defesa em caso de alto risco.

Exemplo Prático

Cláusula Penal Genérica (Erro): “A parte que descumprir qualquer obrigação contratual estará sujeita a multa de R$5.000,00.”

Cláusula Penal Personalizada (Correto): “Em caso de atraso na entrega do produto, o fornecedor pagará multa equivalente a 2% do valor total do contrato por dia de atraso, limitada a 20% do valor total. Caso o prejuízo provocado passe o valor da multa, a parte prejudicada poderá lutar pela indenização complementar.”

2. Linguagem Ambígua ou Técnica Demais

O Problema:

A indeterminação ou o uso com excesso de termos técnicos em contratos pode criar múltiplos entendimentos, criando um cenário próprio para confusões judiciais, podendo:

  • Resultar em litígios por discordâncias no entendimento, como ações declaratórias.
  • Gerar insegurança jurídica, já que os tribunais tenderão a interpretar a cláusula de forma a favor das partes mais necessitadas, como no caso de vínculo de consumo ou há quem não elaborou a ferramenta, como em relações com base em contratos de adesão.

Por tanto para Laurem, uma cláusula que determina que “o pagamento deve ser realizado em data regular” é vaga e pode ser interpretada de outras formas, dependendo do entendimento das partes. Isso pode levar a disputas sobre o que significa “data regular” (mensal, semanal, dia fixo).

Como Evitar:

Use Linguagem Clara e Objetiva:

  • Redija cláusulas de maneira que todas as partes possam compreender os termos, sem necessidade de explicações externas.
  • Substitua termos vagos por definições específicas.
  • Evite jargões jurídicos sem necessidade, exceto quando absolutamente imprescindíveis.

Exemplo:

  • Ambíguo: “O imóvel deve ser entregue em condições adequadas.”
  • Claro: “O imóvel deve ser entregue com todas as instalações elétricas e hidráulicas funcionando, livre de quaisquer vícios aparentes ou ocultos.”

Explique Termos Técnicos:

  • Quando o uso de termos técnicos for inevitável, inclua explicações ou um glossário no contrato. Isso inibe interpretações erradas e facilita o entendimento.

Exemplo:

  • Cláusula: “O locatário deve realizar a purgação da mora no prazo de 15 dias.”
  • Explicação na cláusula: “Entende-se por purgação da mora o pagamento do débito pendente, acrescido de juros e multa contratual.”

Adote Princípios de Legal Design:

  • Utilize formatação visual para ressaltar pontos críticos, como listas, tabelas ou subtítulos. Facilitando a compreensão da leitura e do contrato.
  • Criar um resumo executivo no início do contrato com os pontos mais relevantes, como prazos e obrigações principais.

Evite Ambiguidade Semântica:

  • Analisar expressões que possam ter múltiplos significados e substitua por termos exatos.

Exemplo:

  • Ambíguo: “O pagamento será realizado em tempo hábil após a entrega.”
  • Claro: “O pagamento será realizado em até 5 dias úteis após a entrega dos produtos, desde que sejam aceitos pela contratante.”

Revise o Contrato com um Olhar Crítico:

  • Submeta o contrato à análise de um terceiro para identificar potenciais ambiguidades ou complexidades.
  • Realize simulações de cenários para verificar se as cláusulas funcionam de maneira clara em todas as situações possíveis.

3. Desconsiderar Riscos Específicos

O Problema:

Para Laurem, os contratos que não contemplam os riscos específicos do setor ou do negócio deixam os clientes desamparados frente a situações imagináveis. Ignorar individualidades, como mudanças econômicas, características do mercado ou peculiaridades do objeto contratual, pode resultar em:

  • Danos financeiros significativos: O cliente pode ser prejudicado por eventos que poderiam ter sido previstos e mitigados.
  • Ineficácia do contrato: Cláusulas inadequadas podem não proteger adequadamente contra riscos, tornando o contrato obsoleto em determinados contextos.

Exemplo 1: Em contratos agrícolas (como contratos de safra), ignorar riscos como variações climáticas pode comprometer a execução do contrato, afetando a produção e os resultados financeiros.

Exemplo 2: Em contratos de seguro, desconsiderar o risco de inflação pode impactar o valor da cobertura, deixando o segurado desprotegido no momento da indenização.

Como Evitar:

Realize um Diagnóstico Completo do Negócio:

  • Identifique as características do setor, os riscos operacionais e as condições econômicas que podem impactar a execução do contrato.
  • Consulte especialistas do mercado onde o contrato será aplicado, principalmente em setores complexos como agronegócio, tecnologia ou saúde.

Exemplo: Em um contrato de safra, inclua cláusulas que protejam o produtor contra variações climáticas extremas ou flutuações de preços no mercado agrícola.

Mapeie os Riscos Específicos:

  • Liste os riscos inerentes ao setor ou negócio (ex.: inflação, inadimplência, regulamentações governamentais, eventos climáticos).
  • Classifique esses riscos quanto à probabilidade de ocorrência e impacto.

Exemplo: Em um contrato de locação comercial, considere riscos como aumento do IPTU ou mudanças na legislação tributária local.

Desenvolva Cláusulas Específicas para Mitigação:

  • Preveja ajustes automáticos ou revisões contratuais em caso de variação de índices econômicos, como inflação ou câmbio.
  • Inclua condições que flexibilizam as obrigações em caso de força maior ou eventos imprevisíveis.

Exemplo:

  • Contrato de prestação de serviços: “Em caso de aumento acumulado do índice IPCA superior a 10% no período contratual, o valor será automaticamente reajustado na mesma proporção.”
  • Contrato agrícola: “O prazo de entrega poderá ser prorrogado em até 30 dias em caso de seca, chuvas excessivas ou outros eventos climáticos que impactem diretamente a produção.”

Inclua Mecanismos de Transferência de Risco:

  • Considere a contratação de seguros para riscos específicos (ex.: seguro agrícola, seguro contra interrupção de negócios).
  • Utilize cláusulas que transfiram parte do risco para terceiros, como fornecedores ou prestadores de serviços.

Exemplo: Em contratos de transporte de mercadorias, inclua a exigência de seguro de carga por parte do transportador.

Revise e Atualize o Contrato Periodicamente:

  • Avalie se os riscos previstos permanecem relevantes e se as cláusulas continuam eficazes.
  • Adapte o contrato a mudanças no mercado ou na legislação.

Exemplo: Atualize o contrato imobiliário para refletir as alterações nas regras de zoneamento ou de ocupação urbana.

4. Inadequação ao Marco Legal

O Problema:

A escritora estabelece que os contratos que não estão alinhados com a legislação vigente podem ser anulados ou questionados judicialmente, comprometendo a segurança jurídica e financeira das partes. A inadequação ao marco legal ocorre, por exemplo, quando o contrato desrespeita normas obrigatórias, como as previstas na Lei 9.514/1997 para alienação fiduciária com cláusulas obrigatórias aos instrumentos.

Outro exemplo é em contratos de consumo, as cláusulas que desrespeitam o Código de Defesa do Consumidor (CDC), como a renúncia a direitos essenciais, podem ser consideradas abusivas e anuladas.

Como Evitar:

Atualize-se com a Legislação Vigente:

  • Acompanhe regularmente mudanças legislativas que possam impactar o tipo de contrato que você elabora.
  • Consulte marcos legais gerais (ex.: Lei Geral de Proteção de Dados – LGPD para contratos envolvendo dados pessoais) e específicos, como os aplicáveis ao setor ou tipo de contrato específico.

Exemplo: Um contrato de prestação de serviços de tecnologia deve prever o tratamento de dados pessoais em conformidade com a LGPD, assim como as regras específicas de licenciamento, se aplicável, direitos autorais e a prestação de serviços, cada um com uma legislação aplicável.

Revise Cláusulas Potencialmente Abusivas:

  • Analise as cláusulas que podem ser desproporcionais, especialmente em contratos com consumidores, onde a lei reforça a proteção à parte vulnerável.
  • Substitua termos que possam ser interpretados como renúncia a direitos fundamentais.

Exemplo de erro: “O consumidor renuncia a qualquer direito de reclamação após a assinatura do contrato.”

5. Falta de Gestão Após a Assinatura

O Problema:

Um dos erros mais comuns em contratos, é considerar que o trabalho do advogado termina na assinatura do documento. Uma gestão contratual eficaz garante a execução do contrato conforme o planejado e impede que surrectio e supressão prejudiquem as partes.

Por que isso é um problema?

  • Supressivo: Ocorre quando uma das partes deixa de exercer um direito contratual por um longo período, levando à presunção de renúncia desse direito.

Exemplo: Um locador que não cobra o reajuste de aluguel previsto por anos pode perder o direito de exigir retroativamente, pois a inércia pode configurar uma renúncia tácita.

  • Surrectio: Ocorre quando práticas repetidas criam obrigações não previstas no contrato, gerando expectativas legítimas entre as partes.

Exemplo: A empresa que estipula prazo para pagamento, mesmo sem previsão contratual, assume o compromisso de manter essa prática como regra.

A falta de uma gestão adequada compromete os direitos e obrigações estipulados no contrato, gerando litígios e prejuízos.

Como Evitar:

Acompanhe o Cumprimento das Cláusulas:

  • Estabeleça um plano para monitorar regularmente as obrigações das partes, como pagamentos, entregas e prazos.
  • Utilize ferramentas de gestão contratual que enviem alertas automáticos para lembrar de prazos importantes. Uma mera planilha de Excel e agenda do google já será o suficiente para o início.

Registre Interações e Mudanças:

  • Documente todas as comunicações entre as partes relacionadas ao contrato, especialmente acordos verbais ou mudanças informais.

Exemplo: Um fornecedor que aceita realizar entregas em prazos ajustados informalmente deve registrar essa mudança por meio de um termo aditivo.

Controle Expectativas para Prevenir Surrectio:

  • Evite estabelecer padrões ou práticas que não estejam formalmente previstos no contrato.
  • Esclareça que concessões eventuais não criam precedentes obrigatórios.

Exemplo: Uma empresa que concede descontos esporádicos deve formalizar que essas concessões são excepcionais e não representam uma alteração no contrato.

Avalie Resultados Periódicos:

  • Verifique se o contrato está atingindo os resultados esperados e identifique pontos de melhoria.
  • Realize auditorias periódicas para garantir que todas as obrigações estão sendo cumpridas adequadamente.

Exemplo: Em um contrato de prestação de serviços, avalie trimestralmente se os níveis de serviço acordados (SLAs) estão sendo atendidos.

Evitar estes 5 erros é mais do que uma questão técnica; é sobre produzir confiança, agrupar valor ao cliente e se realçar como uma referência no mercado jurídico.

Contratos bem-feitos não são apenas instrumentos – são ferramentas estratégicas que impulsionam negócios e protegem interesses.